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Mais uma do governador falastrão
Nosso excelentíssimo governador tem se especializado, nos últimos tempos, em se desculpar por seu habitual destempero verborrágico. Refiro-me ao fato de ele ter, em uma reunião com líderes empresariais no último dia 23, se referido ao ministro do meio-ambiente utilizando-se de termos de baixo calão, tais como “viado e maconheiro”. Sem falar no absurdo de afirmar que, se o mesmo vir a Campo Grande no próximo mês participar de evento em defesa do meio ambiente, será estuprado por ele próprio, Puccinelli, em praça pública. Isso para não falar no recente e lastimável episódio em que ele tachou os professores de vadios em rede nacional por reivindicarem o direito garantido por lei a cumprirem 1/3 da carga horária em planejamentos pedagógicos. Em ambos os casos o digníssimo mandatário percebeu, provavelmente alertado por seus assessores, que falou asneira e, em menos de vinte e quatro horas voltou atrás, não se desculpando, mas afirmando que sua intenção não era ofender ninguém, que estava só fazendo uma brincadeira entre amigos íntimos e que ninguém se sentira ofendido em tais situações, pois entenderam o teor humorístico das colocações. O que o ilustre gestor não conseguiu compreender, ainda, é que seu pendor cabotino tem sido responsável por um desgaste eleitoral atrás do outro, afinal atrás de toda brincadeira há um fundo de verdade. Portanto, governador, aconselha-se que o senhor guarde esse humor caustico, negro, depreciativo e preconceituoso para o senhor e sua família, afinal ela sim deve conhecer sua verdadeira face e não se chocar com ela! Ressalte-se que o preconceito, além de socialmente condenável, não tem, como alguns querem fazer parecer, qualquer embasamento bíblico, e afirmo isso na condição de alguém que cresceu em um lar protestante. Senão vejamos o livro de Mateus (9:10-13): E aconteceu que, estando ele em casa sentado à mesa, chegaram muitos publicanos e pecadores, e sentaram-se juntamente com Jesus e seus discípulos. E os fariseus, vendo isto, disseram aos seus discípulos: Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores? Jesus, porém, ouvindo, disse-lhes: Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes. Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento. Assim sendo conclui-se que o mestre, Cristo, não carregava em si qualquer resquício de reacionarismo; condenava sim as atitudes, nunca as pessoas. Isso corresponde ao mesmo que condenar, por exemplo, a prática do tabagismo, mas jamais o fumante. Ninguém é melhor que ninguém por conta de sua orientação sexual. É melhor para o próprio governador, enquanto ser humano entender isso, pois a forma pejorativa com a qual ele se referiu ao fato do ministro ser homossexual e, logo na sequência, afirmar que gostaria de manter relações sexuais com o mesmo em praça pública demonstra um conflito interior gritante! Quanto ao consumo de drogas, é fato mais que sabido até mesmo pelo mais pueril estudante que tal prática é caso de saúde pública, assim sendo, convém ao digníssimo mandatário deixar a política de lado e voltar a suas raízes, afinal o mesmo tem formação médica, e participar de alguns cursos de capacitação para atualizar-se. Quem sabe assim ele passe a ter a sensibilidade tão necessária a qualquer um que queira se dedicar à causa pública (tanto na política quanto na medicina). Para concluir gostaria de compartilhar com o leitor um antigo conto árabe que trata justamente do poder das palavras, o governador deveria refletir bastante sobre ele para evitar novas trapalhadas: “Certa vez uma mulher, conhecida por todos por seu vício de maldizer todos a sua volta, foi levada ao sultão para que respondesse pelas calúnias que havia proferido em toda a feira da cidade. O imperador ouviu atentamente a defesa de tal difamadora e por fim sentenciou: - Corte esta folha de papel em pedaços minúsculos e os esparrame ao longo de toda a feira, depois volte aqui. A mulher, saltitante foi cumprir sua punição tão inusitada quanto branda. Quando voltou foi surpreendida com uma segunda parte da sentença: - Agora volte, recolha todos os pedaços e reconstitua a folha de papel. A mulher redargüiu: - Meu senhor, é impossível cumprir tal sentença. Como conseguirei reunir todos os pedaços novamente e ainda deixar a folha como era antes?! - Esse é justamente o cerne da questão – afirmou o sultão - você não se importou em manter intacta a moral e a honra das pessoas a sua volta. Tais predicados são tão frágeis quanto uma folha de papel. Ou você cumpre esta sentença ou será decapitada!” O fim dessa mulher, todos podem imaginar. Já a do governador falastrão... *Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; vice-presidente do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).
Escrito por tenorio.moura às 18h50
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