Como não faz parte da índole docente se curvar à opressão dos poderosos, vimos, por meio desta, repudiar veementemente a atitude, no mínimo, inconseqüente do excelentíssimo senhor governador do Estado, André Puccinelli, ao tachar todos os educadores de “vadios”. Talvez seja justamente por mantermos essa postura de negação à subserviência que tenhamos despertado tamanho ódio travestido de desdém por parte do gestor supracitado.
Contudo, não será por causa de alguém que nutre alguma espécie de mágoa ou ranço contra os educadores, provavelmente oriundo de seus tempos de estudante, que nos furtaremos ao nosso papel de contestação, combustível que leva os governantes a não se acomodarem em sua habitual inércia letárgica, tampouco deixaremos de levar a termo nossa missão de ensinar. Assim sendo, aproveitamo-nos de nossa formação, enquanto educadores, para esclarecer ao digníssimo gestor estadual que segundo o Dicionário Aurélio:
Vadio é o “1.Indivíduo que não tem ocupação, ou que não faz nada; ocioso, desocupado, tunante, vagabundo.” Assim sendo, sinto muito em ter de contestá-lo publicamente, mas faz-se mister tornar nosso ilustre mandatário ciente de que os professores de seu Estado não se enquadram em tal assertiva. Aliás é recorrente o valor dos educadores não só no Brasil, mas em todo o mundo “civilizado”. Faz-se salutar que efetivamente todos os países que emergiram ao primeiro mundo nos últimos trinta anos investiram maciçamente em Educação, tratando-a como prioridade de fato e não com meros discursos demagógicos. Falando em nossa “mãe gentil”, nosso último imperador proclamava há mais de cem anos que, se não fosse imperador, gostaria de ser professor, pois “não há ofício mais digno que encaminhar as inteligências juvenis”. Que lamentável vermos hodiernamente governantes tão retrógados!
E reiterando a definição de vadio, uma das definições salutares é “vagabundo”. Termo coloquial de sentido depreciativo (naturalmente não acreditamos que nosso líder estadual maior tenha tido intenção tão vil), portanto vemo-nos na obrigação de, humildemente, corrigi-lo. Para tanto novamente recorremos ao dicionário mais conceituado no mercado editorial nacional:
“Vagabundo 1.Que leva uma vida errante; que vagueia; vagamundo, vadio, erradio, errante, nômade, andejo, mundeiro. 2.V. vadio (1 e 4)
3.Fig. Inconstante, volúvel, leviano: ânimo vagabundo.”
Diante do exposto, torna-se nossa obrigação, enquanto cidadãos de bem, conscientes de nossa missão de educadores, de alertar ao nosso governador que evite tantas viagens, o que poderia levar alguém a cometer o engano de atribuir-lhe a pecha de vagabundo!
Ah! Outro termo presente na definição de vadio e, conseqüentemente, de vagabundo, que nos chama a atenção é:
“leviano2 Adjetivo. 1.Que julga ou procede irrefletidamente; precipitado, inconsiderado, imprudente. 2.Sem seriedade; inconstante: mulher leviana. Substantivo masculino.”
Aos mais desavisados, gostaríamos de salientar que qualquer semelhança com o nosso governador é mera coincidência. O fato de ele ter comparado a função de médico traumatologista com a de um professor sem levar em consideração as particularidades de cada profissão não significam que ele menospreza nossa categoria, mas tão somente que ele a desconhece por completo. No entanto, como servidores públicos dedicados, cabe a nós esclarecer-lhe que uma emergência médica não tem a menor verossimilhança com a prática docente, uma vez que esta se pauta em um projeto pedagógico que, além de ater-se a um exercício contínuo, é uma prática coletiva. Temos que compreender a pressão a que nosso governante está sujeito, afinal de contas um aumento de 3,7% no orçamento para se fazer cumprir a lei nº 11.738 é um problema inquietante; mesmo que isso signifique a correção de uma injustiça histórica para com os docentes e a melhoria da Educação Pública em nosso país.
Falando sério, André Puccinelli foi doidivanas ao se levantar contra, não só a lei do piso salarial, mas contra todos os professores deste país. A dívida de honra que ele fez com todos os educadores deste país tornou-se muito maior que a salarial, agiu como um doidivanas, exibiu tresloucadamente uma arrogância, embora propalada por alguns, desconhecida pelas massas, sobretudo pelos professores, a quem aviltou. Suas presunções sobre as especificidades da prática pedagógica revelaram-nos seu despreparo para ser o governador que nosso Estado precisa. Um cidadão que está há tantos anos na vida pública, mas não galgou a sensibilidade necessária para ouvir os anseios do povo, e em especial dos professores que preparam este mesmo povo do qual faz parte, não apresenta condições emocionais e sequer racionais para ser um legítimo representante das classes trabalhadoras. A hipocrisia com que fingia, durante sua campanha eleitoral, levar a Educação a sério só não é, hoje, mais retumbante que sua superficialidade, pois querer resumir planejamento pedagógico a uma meia dúzia de cliques em sites de busca é o mesmo que querer definir governar com arbitrar ao próprio bel prazer.
Esperamos, sinceramente, que a senadora Marisa Serrano, como companheira política do atual governador e notoriamente uma cidadã ligada à causa da Educação; consiga trazê-lo de volta à razão ou, ao menos, esclareça-lhe os pormenores do que vem a ser, de fato, planejamento pedagógico. Caso a falta de bom senso peculiar ao nosso governante continue a falar mais alto, o mínimo que se pode esperar de uma parlamentar que tem a Educação como sua bandeira e alicerce de história de vida é que rompa com ele, sob pena de ser jogada pela opinião pública na mesma vala política que ele cavou.